Congresso dos EUA será comandado por democratas nos próximos dois anos do governo republicano. Internacionalistas especializados em política americana analisam os sinais externos do resultado
Donald Trump acena em base militar em Maryland
Molly Riley / Casa Branca 10.10.2026
O Partido Democrata obteve na terça-feira (3) uma ampla vitória nas “midterms”, chamada de “tsunami azul” ou “onda azul”, em alusão à cor da legenda. A partir de janeiro de 2027, a oposição ao governo de Donald Trump terá maioria na Câmara e no Senado dos Estados Unidos.
O presidente americano afirmou ao jornal The New York Times que estava “absolutamente disposto” a aceitar o resultado das eleições de meio de mandato. “Espero poder trabalhar com eles. Provavelmente chegaremos a algum acordo”, disse. Antes, o republicano havia creditado a derrota ao fato de ele não estar nas cédulas de votação.
Neste texto, o Nexo mostra a nova correlação de forças do Congresso americano e analisa o que as urnas projetam para fora dos EUA.
A nova correlação de forças
As “midterms”, como são conhecidas as eleições legislativas que ocorrem no meio do mandato presidencial, deram aos democratas uma vitória maior do que a projetada por institutos de pesquisa. Os resultados divulgados até a noite de quarta-feira (4) mostram que o partido obteve maioria nas duas Casas do Congresso.
Até a publicação deste texto, os democratas haviam conquistado 54 cadeiras no Senado, ante 44 dos republicanos. Outras duas vagas estavam em aberto na noite de quarta-feira (4). A atual composição da Casa Alta é de maioria republicana de 53 a 47 — contando que dois independentes costumam votar junto com os democratas.
Na Câmara, os democratas obtiveram 237 cadeiras ante 147 dos republicanos. Até a noite de quarta-feira (4), ainda restavam 51 cadeiras em aberto, podendo ampliar a margem da oposição.
Imagem do Capitólio, sede do Congresso americano
Divulgação / U.S. Capitol 01.01.2025
Atualmente, os republicanos contam com 218 cadeiras — o número mínimo para obter maioria. Há um independente que vota junto ao partido de Trump. Os democratas têm 214 cadeiras e há três assentos vagos.
Entre as principais atribuições do Congresso estão a criação e aprovação de leis federais, que são aplicadas em todo o país, e a fiscalização do Executivo. O Legislativo também é responsável pela autorização da execução orçamentária, pela aprovação de declarações de guerra e pela responsabilização do presidente por potenciais malfeitos — o que significa, em última instância, fazer o impeachment.
As explicações do resultado
As “midterms” são vistas como um termômetro sobre o governo vigente. Os índices de popularidade de Trump não são favoráveis.
60%
é o índice de desaprovação de Trump, segundo o agregador de pesquisas do jornal americano The New York Times; 37% aprovam a gestão do republicano
Essa desaprovação tem origem em políticas implementadas pelo governo Trump que contradisseram suas promessas de campanha — e foram exploradas pelos democratas na campanha de agora.
Trump prometeu não se envolver com guerras e acabar com as que seus antecessores empreenderam, mas, iniciou, sem necessidade, um conflito contra o Irã, que impactou a economia global.
O republicano também prometeu melhorar a economia e reduzir o custo de vida da população, mas a guerra no Oriente Médio e, sobretudo, os sucessivos tarifaços aumentaram os preços dos combustíveis e o custo de vida, além de prejudicarem setores estratégicos para os republicanos, como o agrícola e o manufatureiro.
Trump prometeu ainda realizar a maior deportação em massa de imigrantes ilegais da história do país. O governo disse inicialmente que iria atrás de criminosos, mas ampliou essa definição para alcançar qualquer imigrante irregular ou que já esteve irregular em algum momento.
Dessa forma, o governo atingiu trabalhadores, imigrantes em situação regular e até cidadãos americanos — inclusive, alguns deles morreram em ações do ICE, a agência americana de Imigração e Controle de Alfândega.
Os sinais externos das ‘midterms’ sob análise
O Nexo conversou com internacionalistas especializados na política americana para analisar o que o resultado das “midterms” projeta externamente sobre os EUA. São eles:
Clarissa Forner, professora de relações internacionais da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e pesquisadora do INCT-Ineu (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos)
Carlos Poggio, professor de ciência política da Berea College (EUA)
O resultado das “midterms” impacta de alguma forma a política externa de Trump? Quais os limites à contenção que o Congresso pode fazer?
CLARISSA FORNER De forma geral, penso que as “midterms” não devem significar mudanças substantivas de rota na política externa norte-americana, porque, via de regra, o processo de condução e implementação das ações de política externa ainda é majoritariamente protagonizado pelo Executivo, incluindo a Presidência e as agências burocráticas. No entanto, o Congresso também detém importantes prerrogativas, que afetam direta ou indiretamente o campo da política externa, como o controle orçamentário e o poder de monitorar e supervisionar as ações executivas. Nesse campo, restrições orçamentárias podem impor limitações à margem de manobra presidencial, principalmente no que diz respeito, por exemplo, ao manejo de ações militares no exterior.
A maioria no Senado também confere aos democratas maior impacto sobre os processos de nomeação de cargos burocráticos, indicações executivas que, em geral, precisam da chancela do Senado. Isso também pode dificultar as práticas trumpistas de escolha de aliados para os cargos que se relacionam ao campo de política externa e postos diplomáticos. E, finalmente, o poder de supervisão e investigação pode ampliar o escrutínio sobre as ações presidenciais nas comissões de Relações Exteriores. Temas como a interferência trumpista em processos eleitorais estrangeiros e a atuação norte-americana no Irã e na América Latina, além da própria política tarifária, podem ser endereçados nessas investigações, pois também se conectam com aspectos domésticos que foram importantes na agenda eleitoral democrata, como a pauta econômica e o papel das big techs. E os processos investigativos certamente ampliam a pressão sobre Trump, que se encaminha para um fim de mandato bastante enfraquecido após esses últimos desdobramentos.
CARLOS POGGIO É muito limitado o impacto em política externa. Agora, há dois caminhos possíveis: um é ele [Trump] se ver mais preso a questões domésticas, tendo sua agenda travada e se ocupando muito com as questões de investigação no Congresso, etc. E a outra coisa, que já vimos com outros presidentes, é justamente o contrário: focar mais na questão externa. Tratando-se de Donald Trump, nunca sabemos qual o caminho.
Sobre tarifas, não há nada que possa ser feito, porque, como todas foram feitas por ordem executiva, só cabe à Suprema Corte declará-las inconstitucionais. Trump, apesar de ter maioria, nunca trabalhou muito com o Congresso norte-americano. Ele não fez esforço para aprovar nenhum tipo de legislação muito significativa para além da questão do orçamento e dos cortes de impostos. Ele não deixa um legado legislativo muito importante.
Então, tem muito pouco que o Congresso pode fazer neste momento. Não vejo muito impacto em questões específicas com a América Latina. Claro, pode enfraquecer um pouco a agenda. Mas acho que tem um enfraquecimento que não é só material, de perda de cadeiras, mas o enfraquecimento imaterial de autoridade, de imagem — e isso é muito importante em política. Vale tanto no campo doméstico quanto no campo internacional.
Quais sinais esse resultado projeta para fora dos EUA? É possível fazer algum paralelo com as derrotas recentes da extrema direita no Brasil e na Sérvia?
CLARISSA FORNER Como os resultados ainda estão em fase de consolidação, principalmente no que diz respeito ao perfil do eleitorado nos EUA, talvez ainda seja cedo para fazer projeções de longo prazo. Além disso, embora existam aproximações, principalmente no caso brasileiro e estadunidense, no que se refere à retomada de fôlego dos setores progressistas, também há algumas limitações. No caso brasileiro, por exemplo, embora a vitória de Lula tenha simbolizado a força desse progressismo, a direita se manteve forte no Congresso e nos governos estaduais. Em se tratando dos EUA, também fica claro que as vitórias democratas, inclusive em estados de maioria republicana, como Texas e Kansas, sinalizam uma enorme “ressaca” e, certamente, respondem à crescente insatisfação com o trumpismo.
Mas isso não significa, necessariamente, uma inclinação maior geral ao progressismo. Houve vitórias progressistas importantíssimas — que mostram, por um lado, que há espaço para a consolidação de uma base política democrata “mais à esquerda” —, mas parte dessas vitórias também se deu a partir de candidatos democratas mais mainstream, moderados — como o caso do Kansas —, de modo que os próximos anos também serão importantes para estabelecer os contornos desse espectro progressista renovado.
O que me parece ser um elemento comum a esses processos eleitorais é o reforço da importância da mobilização popular. Nos últimos anos, frente à reemergência da extrema direita, falamos muito sobre crise de representatividade e de como diferentes grupos sociais, como a juventude, se afastaram da mobilização política. Estas eleições mostram que essa mobilização não só é possível, como também é potente, fazendo frente a limites sistêmicos institucionais, ao papel das big techs e das grandes corporações, etc. A manutenção dessa mobilização durante os mandatos que se seguirão me parece ser o grande desafio, mas também a chave para a continuidade e a consolidação dessa onda de vitórias progressistas e anti-extrema direita que observamos.
CARLOS POGGIO Acho que tem paralelos importantes. Vamos lembrar que Donald Trump é a grande novidade política americana e, por consequência, a novidade mundial dos últimos 10 anos. E nós estamos assistindo, agora, a um golpe muito forte nesse movimento [de extrema direita]. Acho que, nesse sentido, podemos ligar o que aconteceu nos Estados Unidos ao Brasil e à Sérvia. Talvez seja a população realmente demonstrando a necessidade de uma certa articulação social para dar um tipo de parada ou freio a determinados movimentos, principalmente esses de natureza similar ao trumpismo.
Acho que é um pouco o início dessa reação. Talvez, o ano de 2026 possa apontar para o início de uma reação nesse sentido, mas acho cedo para dizer que é uma tendência global. Temos que olhar para outras corridas ao redor do mundo, mas o momento agora me parece que é de enfraquecimento desse movimento.
Fonte: Camara Legislativa