‘É preciso aliar ajuste fiscal e mudança no perfil da dívida’

Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional, analisou ao ‘Nexo’ a situação fiscal do país e os caminhos para a economia brasileira

<media:content url=” type=”image/jpeg” medium=”image”>
<media:title>
Notas de R$ 50 e de R$ 100
</media:title>
<media:credit>
PxHere / 02.09.2017
</media:credit>
</media:content>

Em meio à pressão de economistas e agentes do mercado financeiro por ajuste fiscal, um artigo de André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, reacendeu o debate sobre as causas e soluções para os problemas das contas públicas brasileiras.

Publicado no fim de setembro de 2026, o texto argumenta que a dívida do país aumenta de forma “explosiva” não porque o governo gasta mais do que arrecada, mas sim porque está atrelada a uma taxa de juros muito alta. O economista sugere, então, uma redução dos juros para alcançar o alívio fiscal.

Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional, disse ao Nexo que o diagnóstico de Lara Resende está correto. A economista — que é conselheira internacional do Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) e professora da Universidade de Georgetown — também afirmou que é necessário mudar o perfil da dívida, em especial sua forte conexão com a taxa Selic.

13,75%

ao ano é o patamar da taxa Selic em novembro de 2026 

Esse tipo de proposta recebe o nome de desindexação. A indexação é o mecanismo econômico que ajusta automaticamente salários, contratos, investimentos ou dívidas de acordo com indicadores econômicos, como a inflação e os juros. Desindexar é, portanto, desmontar esses mecanismos.

“Mais do que o tamanho propriamente dito, a composição da dívida pública é o que realmente preocupa. Há uma parcela enorme da dívida pública brasileira atrelada a instrumentos indexados à Selic. Então, toda vez que a taxa de juros sobe, isso tem um impacto direto tanto na dívida pública quanto no resultado nominal do governo”, avaliou De Bolle ao Nexo.

O resultado nominal é a diferença entre o que o governo gasta e arrecada, contando com o pagamento de juros da dívida pública. Em 2025, o resultado primário — ou seja, receitas menos gastos, sem contar os juros da dívida — foi um deficit de 0,4% do PIB (Produto Interno Bruto). Já o deficit nominal foi de 8,3%.

Segundo De Bolle, uma mudança na composição da dívida, aliada a um ajuste das contas públicas, pode abrir caminho para uma queda dos juros no país.

Nesta entrevista ao Nexo, ela avaliou a situação fiscal do Brasil, analisou o diagnóstico e a proposta de Lara Resende e apontou caminhos para a economia brasileira.

Como avalia o estado das contas públicas às portas de 2027? Está tão ruim quanto a percepção de boa parte dos agentes do mercado financeiro?

MONICA DE BOLLE Está ruim. Em apenas quatro anos, houve um crescimento extraordinário da dívida pública, que passou de 70 e poucos por cento do PIB para 83% do PIB [passou de 71,7% em 2022 para 82,9% do PIB em setembro de 2026]. Se nada for feito, ela vai continuar aumentando. Não há nenhuma perspectiva de alívio.

Quando olhamos o que realmente acontece, notamos que esse problema da dívida pública é muito mais relacionado ao nível alto das taxas de juros do que propriamente ao deficit primário.

Temos um deficit primário, uma situação de gastos complicada, descontrolada e que precisa ser ajustada, assim como o lado da receita precisa ser ajustado. Mas, se quisermos ter uma reversão rápida do crescimento da dívida pública, isso não vai ser alcançado por meio de coisas que se façam no resultado primário do governo. Temos de mexer precisamente no resultado nominal. E aí entra a questão dos juros.

Qual seria o formato ideal do ajuste fiscal? E o possível?

MONICA DE BOLLE Precisamos tratar desse diagnóstico do que acontece hoje com a economia brasileira. Não é um diagnóstico novo, porque é uma situação que já está conosco há décadas, mas, nos últimos quatro anos, se agravou. Mais do que o tamanho da dívida propriamente dito, a composição da dívida pública é o que realmente preocupa.

Temos uma parcela enorme da dívida pública brasileira que é pós-fixada [ligada a índices pré-determinados que podem variar ao longo do tempo]. Ela está atrelada a instrumentos que são indexados à Selic. Então, toda vez que a taxa de juros sobe, há um impacto direto tanto na dívida pública quanto no resultado nominal do governo. Cria-se uma despesa financeira imediata para o governo, por conta dessa composição.

Essa composição é anacrônica, porque, quando olhamos para as dívidas públicas em outros países, normalmente elas são inteiramente pré-fixadas. São taxas de juros preestabelecidas, negociadas em contrato.

<media:content url=” type=”image/webp” medium=”image”>
<media:title>
Dívida pública brasileira chega a 82% do PIB
</media:title>
<media:credit>
Rafa Neddermeyer / Agência Brasil
</media:credit>
</media:content>

O caso brasileiro é sui generis, porque essa indexação da dívida pública vem dos tempos da hiperinflação. Quando fizemos o Plano Real em meados dos anos 1990, desindexamos boa parte da economia brasileira, mas não chegamos a desindexar ativos financeiros. Então, essa parcela indexada permaneceu na economia e permaneceu na nossa dívida pública.

Com essa composição, com esses papéis representando a metade da dívida pública brasileira, cria-se um imbróglio fenomenal entre a política monetária e a política fiscal, que acontece por causa dessa indexação.

Por isso, não conseguimos resolver a situação fiscal brasileira apenas por meio das ferramentas tradicionais de corte de gastos ou de elevação de receitas, ou mesmo as duas coisas juntas. Isso também é necessário. Mas, antes de qualquer coisa, precisamos pensar em como reduzir nossa dependência e reduzir a parcela da dívida pública que é indexada e carrega essa herança hiperinflacionária até hoje.

Ao mesmo tempo que sofre pressão por um ajuste, o presidente Lula dá sinais mistos sobre a condução da política fiscal. Na sua opinião, qual o caminho ideal para a condução da política econômica no quarto mandato? Até que ponto será possível cumprir as promessas de campanha no atual cenário fiscal?

MONICA DE BOLLE Lula conseguiria fazer um belo quarto mandato se, de fato, fizesse o esforço para completar aquilo que não pôde ser feito à época em que fizemos o Plano Real [desindexar a dívida]. 

Como fazer isso? Ele precisa de uma equipe econômica que tenha conhecimento; que consiga entender esse diagnóstico a respeito da economia brasileira; e que tenha traquejo, evidentemente político, porque o Ministério da Fazenda é um cargo político. Precisamos de alguém com esse perfil, mas alguém que também que se relacione bem com o mercado financeiro, porque o mercado financeiro terá de ser parceiro desse ajuste.

O Plano Real foi uma das coisas mais importantes que fizemos no país, mas, infelizmente, na época, o Brasil passava por crises de mercados emergentes no mundo. Foi uma época muito complicada para dar continuidade ao que havia sido iniciado. O momento de completar o Plano Real é agora.

Lula precisa indicar uma equipe econômica que esteja à altura desse desafio e fazer uma coordenação com o mercado financeiro para, precisamente, dar conta do problema da dívida pública. Politicamente, isso é complicado, principalmente num contexto em que temos um Congresso que não é francamente favorável ao governo. Porém, se voltarmos novamente à nossa história, quando fizemos o Plano Real, a situação política do país era para lá de complicada.

Tínhamos acabado de ter um impeachment do presidente [Fernando] Collor [em 1992]. Tínhamos um presidente em exercício, Itamar Franco, que não era percebido como uma pessoa de pulso muito forte. Ainda assim, fizemos uma reforma extraordinária na economia brasileira, dando origem ao Plano Real. Se conseguimos fazer aquilo naquela época, não vejo nenhuma razão para dizer que não conseguiríamos fazer agora.

Mas é preciso que todas as pessoas — do governo, do mercado, do setor privado, acadêmicos, analistas, comentaristas, todas aquelas pessoas que participam do debate público — entendam que o Brasil não vai prosperar se ficarmos carregando o legado da era hiperinflacionária à frente. Estamos vendo isso na maneira como as políticas fiscal e monetária estão sendo impedidas ou interditadas precisamente por conta da composição de dívida pública.

Mas a sra. acha possível ocorrer essa parceria entre a gestão Lula, um Congresso adverso e um mercado financeiro que se mostra historicamente resistente ao governo?

MONICA DE BOLLE Todo mundo precisa ter pragmatismo agora. As pessoas precisam largar as ideologias, deixar de lado suas torcidas e trabalhar de uma vez por todas para fazer o bem ao país. Isso é uma questão de maturidade. Está na hora de acabar com esse comportamento imaturo e ter ciência de que resolver esse problema fará bem a todos. Por mais que qualquer ajuste envolva algum sacrifício no curto prazo, nós sabemos, como vimos no Plano Real, que as coisas podem melhorar e muito quando desindexamos, nos libertamos dessas amarras e permitimos o bom funcionamento das políticas macroeconômicas.

O Brasil é um país que já deveria ter evoluído dentro dessa situação. Quando olhamos para nossos pares na América Latina, por exemplo, vemos que países que tiveram situações muito piores que a nossa não enfrentam mais esse tipo de dilema. Só estamos enfrentando esse dilema porque estamos tentando conviver com uma herança hiperinflacionária que não nos cabe mais. 

Aliás, esse sequer é um diagnóstico novo. Ele está conosco há muitos anos. Uma porção de pessoas já identificou esse problema, e hoje estamos numa espécie de ponto de virada.

É muito importante sairmos dessa discussão econômica em que não há debates, mas ataques. Um lado ataca o outro, fica esse tiroteio constante e, no final das contas, nada é feito. Este é um momento oportuno para mudar a forma do debate econômico no Brasil.

Como avalia a proposta de André Lara Resende para melhorar a situação fiscal do país?

MONICA DE BOLLE O diagnóstico de que o principal motor da dívida brasileira é a taxa elevada de juros é correto, mas é errado dizer — como muitos interpretaram na proposta do André [Lara Resende] — que é para reduzir a taxa de juros na marra. Não é assim que se faz. A taxa de juros é endógena. Ela está alta por problemas preexistentes, que estão precisamente na composição da dívida pública. O correto é encontrar caminhos para resolver essa situação — o que, junto com o ajuste fiscal, poderia vir a abrir espaço para uma redução natural dos juros. Ninguém vai forçar os juros a cair. É a mudança na situação como um todo que tem esse efeito.

Acho que o André [Lara Resende] fez um primeiro movimento para abrir um debate que não estava sendo feito no Brasil. Nesse ponto de vista, a proposta foi muito feliz. Mas não a vejo como um plano pronto que poderíamos colocar em vigor assim que houvesse um consenso a respeito desse diagnóstico de fundo. 

A proposta ainda está incompleta. Tem pontos que são complexos e difíceis de arquitetar ou até mesmo de aceitar. Por exemplo, o uso das reservas internacionais me deixa desconfortável, porque, num mundo tão volátil quanto este em que vivemos — embora tenhamos uma taxa de câmbio flutuante —, não dá para pensarmos em queimar parte das nossas reservas. Elas são muito importantes para nós.

Há aspectos que precisam ser debatidos. É importante abrir o debate. Se vai ser a proposta do André, se vai ser outra, se vai ser um aprimoramento da proposta dele ou algo completamente diferente, o mais importante é formar um consenso em torno daquilo que é preciso fazer. Formado o consenso, abre-se um leque de alternativas para discussão. Pode ser algo parecido com o que o André propôs ou algo diferente, desde que vá em direção a resolver esse problema.

Quais outras medidas poderiam ser tomadas para reduzir os juros? Qual seria a importância de reduzir as taxas de juros no país?

MONICA DE BOLLE É extremamente importante que, ao mesmo tempo que resolva o problema da desindexação da dívida, também se removam da nossa política fiscal os excessos — e há muitos excessos, como gastos tributários e desonerações. Essa é uma conta enorme, de mais de R$ 600 bilhões. Tem muita coisa que pode ser eliminada por completo, porque há muitas desonerações que simplesmente não ajudam ninguém. É um desperdício de recursos do governo. 

Está no momento de o Brasil fazer uma revisão dos gastos para ver o que, de fato, está nos servindo e o que não está. Isso faz parte de um conjunto maior de medidas para melhorar a coordenação entre a política monetária e a política fiscal, colocando o país numa trajetória sustentável, que hoje não se apresenta. 

Isso ajudaria até a resolver outros problemas da economia brasileira. Temos um problema de endividamento do setor privado muito sério. Há muitas empresas muito endividadas, com dificuldades financeiras — em parte, sim, por causa dos juros altos, e em parte por causa de outras mudanças nos mercados, que vêm afetando a capacidade dessas empresas de gerar rentabilidade. Essa situação é grave porque, em última análise, afeta o balanço dos bancos. Temos um problema sério a resolver, que está diretamente conectado à falta de coordenação entre a política fiscal e a política monetária.

Política

Veja também