Eleger democratas para os principais cargos políticos não é suficiente para proteger a democracia, porque seu funcionamento vem sendo afetado pela normalização de comportamentos iliberais
A alegria dos progressistas brasileiros dura pouco. Ainda não tinham se passado 24 horas da vitória eleitoral de Lula e nossa atenção já estava capturada pela fuga de Flávio Bolsonaro. Com ela, veio — como de hábito — uma narrativa: a eleição de Lula não apenas foi fraudada, como confirma a ditadura de toga que oprime os verdadeiros defensores da liberdade no Brasil.
Do lado vencedor, por sua vez, democratas no mundo inteiro ostentam o “L”: acreditam que nós, brasileiros, descobrimos a fórmula para impedir a erosão da democracia.
Sem querer estragar a festa, mas já estragando, peço licença para discutir o alcance da vitória de Lula. As eleições que acabamos de encerrar demonstraram mais uma vez que nossa democracia está num processo de erosão, o que já vem ocorrendo há muito tempo. Ainda que um presidente com convicções democráticas seja condição necessária para enfrentá-la, sua eleição não representa um antídoto suficiente.
Uma interpretação requer evidências. Vamos a elas. Na última eleição municipal em São Paulo, em um debate televisivo, cujas regras eram muito claras, um dos candidatos arremessou uma cadeira em outro candidato. A única candidata mulher daquela disputa declarou ao final do debate que havia preparado uma série de propostas, mas tinha certeza de que a cobertura de mídia se concentraria na cadeirada, portanto, suas ideias para a cidade de São Paulo passariam despercebidas.
O candidato que levou a cadeirada, um habilíssimo provocador, cujas propostas permaneceram desconhecidas, recebeu votação tão expressiva que quase foi para o segundo turno. Ficou muito à frente dos outros dois personagens do parágrafo anterior. A despeito de sua condenação pela Justiça Eleitoral, esse mesmo provocador foi um influente assessor de Flávio Bolsonaro em 2026, a ponto de orientar o primeiro debate televisivo do candidato no segundo turno desta eleição.
Quando a legitimação de atores iliberais e a subversão das regras democráticas se tornam práticas regulares, a democracia já está em processo de erosão
No primeiro turno, o ecossistema de informação privilegiou escândalos de corrupção em detrimento da apresentação de propostas para o Brasil. Informações sobre os personagens e os valores envolvidos, liberadas a conta-gotas, em doses diárias, por meio de vazamentos e da busca de audiência, produziram perplexidade e indignação.
Ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral usaram sua autoridade para favorecer candidatos, produzindo informação seletiva sobre os escândalos e interferindo até mesmo na realização de debates. O comportamento desses ministros no dia do segundo turno está no centro das narrativas sobre a eleição, não por seu impacto sobre o resultado, mas pela credibilidade das decisões tomadas, dada sua evidente partidarização.
Essas evidências representam eventos isolados? Ou são fatos extremos de classes de eventos que se tornaram regulares? O fato é que a exposição sistemática e viesada de candidatos a situações de grande constrangimento, a banalização da violência, o descrédito das instituições encarregadas de produzir informação, a partidarização dos tribunais e a mobilização do ódio como estratégia política tornaram-se regulares no funcionamento de nossa democracia.
Se assim é, a erosão democrática não é algo a ser evitado no futuro. A erosão democrática já aconteceu.
O tema está discutido em um artigo intitulado “It’s not Polarization; it’s the radicalization of the political right”, publicado na revista Perspectives on Politics, em 2026. Seu autor, Petter Törnberg, argumenta que a ciência política tem alguma responsabilidade no erro de diagnóstico sobre a crise das democracias contemporâneas.
A explicação convencional estabelece que a erosão da democracia acontece quando o funcionamento formal de uma instituição é interrompido, contrariando regras legais ou constitucionais previamente estabelecidas. Um golpe de Estado, a suspensão de eleições e intervenções nos tribunais seriam classes de eventos que evidenciariam o fim da democracia. Assim, evitar a chegada de líderes autoritários ao poder seria condição necessária e suficiente para proteger a democracia.
O principal vetor da erosão democrática, segue a explicação convencional, seria a polarização, em particular a polarização afetiva, fabricada pela amplificação dos algoritmos nas mídias sociais e pela consequente socialização política em câmaras de eco, nas quais o eleitor é desinformado por narrativas falsas acerca dos acontecimentos políticos. A intensidade dos sentimentos negativos em relação ao oponente e o esvaziamento do papel estabilizador do centro político constituiriam o mecanismo central da erosão.
Não é esse o principal risco que as democracias contemporâneas enfrentam, afirma Törnberg. O risco está no surgimento de uma direita antidemocrática e iliberal, cujas estratégias têm conduzido inevitavelmente à incivilidade no processamento dos conflitos políticos. A erosão da democracia acontece quando ocorre a banalização da violência e da retórica autoritária, bem como a normalização da conspiração e do ódio como estratégias de mobilização política. Quando a legitimação de atores iliberais e a subversão das regras democráticas se tornam práticas regulares de um sistema político, a democracia já está em processo de erosão.
Nessas condições, eleger democratas para os principais cargos políticos não é suficiente para proteger a democracia, porque seu funcionamento regular continuará afetado pela normalização de comportamentos iliberais. É necessário desativar as práticas que levam à incivilidade como modo regular de disputa política. É necessário encontrar caminhos pelos quais a sanção de comportamentos inaceitáveis não converta o transgressor em vítima, alimentando a erosão institucional.
A relevância da contribuição de Törnberg consiste em sugerir uma métrica – a normalização de comportamentos iliberais – bem como o mecanismo que alimenta a erosão da democracia, qual seja, a subversão sistemática das regras do jogo. Embora o autor afirme ser a extrema direita a corrente política que ameaça as democracias contemporâneas, seria promissor examinar se a banalização da violência e do autoritarismo não contaminou outros atores e instituições. Não há relação necessária entre a orientação ideológica dos atores e a adoção de comportamentos que reconhecem, legitimam e alimentam o desrespeito às regras do jogo democrático.