Calor extremo matou mais de 50 mil pessoas em cidades europeias no verão de 2026

As ondas de calor que atingiram a Europa no verão de 2026 podem ter causado 50.391 mortes em áreas urbanas do continente, segundo estimativas científicas revisadas por pares. Desse total, aproximadamente 32.619 óbitos — cerca de dois terços — são atribuídos ao aquecimento provocado pela atividade humana, principalmente pela queima de combustíveis fósseis.

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Os números foram calculados por pesquisadores do Imperial College London e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, ambos na Inglaterra. O estudo analisou 854 cidades e áreas urbanas de 30 países europeus, considerando dados meteorológicos, características da população e a relação entre temperaturas e mortalidade. Os resultados indicam que o verão de 2026 foi o mais mortal por calor desde o início da série analisada, em 2000.

A estimativa representa aumento de aproximadamente 71% em relação a 2022, quando o calor provocou cerca de 29.480 mortes nas mesmas áreas. O verão de 2003, marcado por ondas de calor devastadoras, registrou estimativa de 28.462 óbitos.

Como os pesquisadores calcularam as mortes

  • Os números não correspondem a uma contagem oficial de pessoas cujas certidões de óbito apontaram o calor como causa da morte. As temperaturas elevadas também podem agravar problemas cardiovasculares e respiratórios, por exemplo, sem que o calor seja identificado diretamente nos registros médicos;
  • Para estimar esse impacto, os pesquisadores combinaram dados de temperatura, informações demográficas e modelos que relacionam as condições climáticas ao risco de morte. Em seguida, simularam um cenário hipotético no qual o planeta não teria sido aquecido pelas emissões humanas de gases de efeito estufa. A diferença entre os resultados dos dois cenários permitiu calcular a parcela das mortes associada ao aquecimento provocado pela atividade humana;
  • O levantamento, porém, tem limitações. As 854 áreas analisadas representam aproximadamente 40% da população dos países considerados, e os resultados não necessariamente refletem a situação de toda a Europa. Além disso, os cálculos não incluem uma onda de calor registrada em maio, o que pode fazer com que o total estimado para o verão fique abaixo do impacto real.

Ondas de calor que atingiram a Europa no verão de 2026 podem ter causado 50.391 mortes em áreas urbanas do continente – Imagem: chandet/Shutterstock

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Uma onda de calor concentrou parte das mortes

Segundo os pesquisadores, cerca de um terço das mortes estimadas ocorreu entre 17 de junho e 1º de julho, durante um episódio particularmente intenso. Nesse período, as temperaturas ficaram, em média, 5,3 °C acima do normal.

Em algumas cidades europeias, a diferença em relação às temperaturas habituais chegou a 12 °C. O calor extremo também expôs trabalhadores ao ar livre a condições perigosas e contribuiu para incêndios florestais de grandes proporções na França e na Espanha. Os incêndios deslocaram cerca de 300 mil pessoas.

O verão de 2026 foi o mais quente já registrado na Europa Ocidental e o terceiro mais quente no continente como um todo.

Idosos foram os mais afetados

As pessoas com 85 anos ou mais concentraram mais da metade das mortes estimadas relacionadas ao calor. Ainda assim, os efeitos não ficaram restritos à população idosa: mais de 800 mortes foram estimadas entre pessoas de 20 a 44 anos, segundo Garyfallos Konstantinoudis, pesquisador do Imperial College London que participou do estudo.

A vulnerabilidade ao calor varia de acordo com fatores, como idade, condições socioeconômicas, características das cidades e acesso aos serviços de saúde. Clair Barnes, cientista climática do Imperial College London e principal autora dos estudos, afirmou que o aquecimento provocado pela atividade humana elevou ainda mais o risco de morte durante episódios de calor que já seriam perigosos.

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A Europa também vem ampliando o monitoramento dos impactos das altas temperaturas. Agências de saúde de países, como Reino Unido, França, Alemanha e Espanha, passaram a divulgar estimativas de mortes relacionadas ao calor enquanto o verão ainda está em andamento, segundo Barnes.

Os pesquisadores defendem que a preparação para temperaturas extremas inclua sistemas de alerta, acesso a formas de resfriamento e medidas para proteger as populações mais vulneráveis. A redução das emissões de gases de efeito estufa também é apontada como necessária para limitar o agravamento dos riscos à saúde.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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