Um agradecimento aos jornalistas brasileiros, sobretudo aos da imprensa independente, que investigam e organizam boa parte das informações urgentes para nós, do Brasil
Foi durante a pandemia, num daqueles momentos em que os dias tinham se tornado indistintos e a cidade lá fora havia virado uma abstração — e também um desejo —, que comecei a escutar, episódio a episódio, “Retrato narrado”, o podcast em que Carol Pires reconstitui a trajetória de Jair Bolsonaro. Lembro quando a série chegou ao famigerado caso da bomba. Em 1987, o então capitão, que um ano antes já tinha sido punido por reclamar do soldo num artigo publicado na Veja, foi acusado pela mesma revista de planejar algo bem mais grave: colocar bombas em unidades militares do Rio de Janeiro, entre elas a Vila Militar e a adutora que abastece a cidade, para pressionar por aumento salarial. A revista publicou os croquis do plano; Bolsonaro negou a autoria; o Superior Tribunal Militar o julgou e, no ano seguinte, o absolveu. A história não era inédita para mim, mas aquela foi a primeira vez que ela me chegou inteira, dentro do seu contexto, com início, meio e fim.
A cada episódio, o retrato do então presidente ganhava contornos mais nítidos, porque o podcast trazia dimensões que não chegam por outros meios: a voz de uma familiar que esteve lá, um documento oficial lido com calma, a cronologia que põe cada gesto no seu lugar. Foi assim que Bolsonaro, e o país que ele governou, foram fazendo sentido para mim. Guardei, naquele momento, uma lição que não me largou mais: há coisas sobre o Brasil que a gente só entende quando um jornalista decide contar.
Me lembrei disso nas últimas semanas. Entre o primeiro turno e o resultado do segundo, passamos por um turbilhão de eventos. Primeiro, os grupos de WhatsApp fervendo, da família ao condomínio. Depois, o trabalho miúdo e popular de conversar com conhecidos e desconhecidos sobre política. Depois, as manifestações, em todas as cidades do Brasil, de dimensões que ninguém tinha visto. Depois, uma virada nas urnas que nunca tinha acontecido em eleição presidencial. E, por fim, dois dias depois da apuração, o candidato derrotado embarcando para os Estados Unidos e, de lá, divulgando uma carta em que se declarava “presidente eleito” sem apresentar uma prova sequer de que havia vencido a eleição.
A carta falava em resultados “matematicamente impossíveis” na virada de Lula. A resposta veio em aritmética: o Nexo mostrou que o presidente somou 10,4 milhões de votos entre um turno e outro, enquanto a abstenção caiu em quase 3 milhões — o que fez da virada, embora inédita, perfeitamente possível.
Naquele momento, a imprensa deu nome ao que estava vendo. Quem sai do país às pressas, antes de qualquer pronunciamento, com a família e sem data para voltar, não viaja: foge. Chamou-se de fuga. E a palavra certa, dita na hora certa, é uma forma de organizar o mundo.
Há coisas sobre o Brasil que a gente só entende quando um jornalista decide contar
Da bomba do capitão à carta do filho, há quase 40 anos de um passado recente que os livros ainda não cobrem por inteiro. Quem cobre, com o atraso mínimo que o ofício permite, são os jornalistas. Em cada ponta desse arco, havia um repórter comprometido com a apuração: em 1987, para publicar os croquis; em 2026, para dizer que a carta não trazia prova nenhuma de fraude nas urnas.
Não é demérito dos livros. As ciências humanas e sociais têm um tempo próprio: precisam de distância, de arquivo aberto e, de preferência, de personagens que já não possam processar ninguém. O jornalismo trabalha sem essa distância, enquanto as coisas ainda estão acontecendo; por isso, erra mais, corrige-se em público e paga caro por cada erro. Mas é o registro mais confiável que temos enquanto o resto não chega.
Quando as teses de doutorado sobre o bolsonarismo começarem a ser defendidas na ciência política, na história, na sociologia, na geografia, na economia e — espero — no direito, suas bibliografias estarão cheias de reportagens.
Se as bibliografias do futuro vão citá-las, o leitor do presente pode ao menos nomeá-las. Faço isso aqui porque agradecimento genérico cai no vazio. Nestas semanas, o que me ajudou a não me afogar na enxurrada de acontecimentos foi, em boa parte, o trabalho de investigar e organizar a informação, que veio de jornalistas — sobretudo dos independentes, mas não exclusivamente. O “Duas e Tanto”, que duas vezes por semana separa o que importa do que é ruído; o “Calma Urgente” e as reportagens do “Revelando”, que a cada momento traziam mais dados sobre a temperatura política do país; o “Foro de Teresina”, da piauí, que há anos faz a leitura crítica da semana; “A Hora”, do UOL; o “Café da Manhã”, da Folha, e “O Assunto”, do G1, que em todo dia útil destrincham um tema com quem entende dele.
O Nexo, para ficar na casa onde escrevo, atravessou o período eleitoral produzindo levantamentos, mapas, infográficos e explicações que permitiram enxergar a eleição como território: onde o voto mudou, onde a abstenção caiu, o que explica a virada.
São formatos, casas e orçamentos muito distintos, mas o gesto é o mesmo: pegar o aparente caos e devolver uma ordem provisória. Não é pouco num país onde a informação chega fragmentada em cortes de vídeo e correntes de mensagem, e as fake news afluem com a vazão do rio Amazonas. Ter alguém dizendo “calma, vamos por partes” é prestação de serviço público.
Organizar, porém, é metade do trabalho. A outra metade é a investigação propriamente dita, que é onde mora o risco. O Intercept Brasil, a piauí, a Agência Pública e tantos outros veículos seguem indo atrás do que os personagens da política preferem que ninguém encontre: o patrimônio que não bate, o contrato que não aparece, a conversa que não deveria ter existido. É um ofício que custa processos, ameaças e campanhas de assédio nas redes. Repórteres no Brasil correm riscos concretos por trazer determinadas verdades à tona. E, ainda assim, entregam.
O que o jornalismo produz — a história levantada, o dado organizado, o mapa desenhado — é o material com que a universidade vai trabalhar depois. As ciências humanas e sociais dependem desse trabalho anterior de apuração para aprofundar o que ainda não entendemos sobre o país. Quando um pesquisador, daqui a 10 anos, quiser compreender o que foi o Brasil entre 2018 e 2026, vai recorrer ao que se registrou agora. Os jornalistas estão escrevendo a primeira versão de um relato que a academia só conseguirá contar com calma mais tarde.
Isso não quer dizer que a imprensa seja infalível ou não mereça crítica; merece, e boa parte dela vem de dentro. Mas o jornalismo independente brasileiro, com orçamento apertado e nenhuma garantia de que estará de pé no ano que vem, é uma das instituições que mantêm o país cognoscível para si mesmo. Numa democracia com tantos problemas quanto a nossa, saber o que está acontecendo é condição mínima para que ela continue existindo.
Então, obrigado. À Carol, que me fez entender a bomba no quartel. E a todos que, da bomba de Jair à carta de Flávio, foram atrás da história, deram nome ao que viram e nos entregaram o que encontraram.