Em 22 de outubro de 2026, a Pulsatrix Studios, de Fobia: St. Dinfna Hotel e A.I.L.A., lançou no PC o primeiro episódio da antologia Otherside Tapes e levou o terror para um cenário pouco visitado pelo gênero: uma favela carioca em 2006. Joguei Otherside Tapes: Favela por 5 horas, no modo padrão, e já adianto: o lugar assusta mais do que qualquer criatura.
Uma favela que parece de verdade
Você controla Cláudio da Silva, criador de conteúdo sobre lendas urbanas que entra na Favela das Almas atrás da misteriosa Rua 7, cercada por relatos de desaparecimentos e ligada a um incêndio que destruiu a comunidade anos antes. Tudo é visto pela câmera dele, em estética found footage, com imagem granulada de fita caseira, e a investigação logo vira um ciclo de realidades distorcidas, oferendas ritualísticas e manifestações sobrenaturais.
A estética da favela foi muito bem construída. Vielas estreitas, fiação exposta, placas de comércio feitas à mão, filtro de barro: parece que o time teve ótimas referências, ou conhece essa realidade de perto. O mapa é pequeno e, mesmo assim, passa a vibe perfeita. Os gráficos são bons, com cenário, personagens e objetos bem trabalhados, e não tive nenhum problema de desempenho jogando com tudo no máximo.
A dublagem em português é ótima e a atuação é muito boa, com Cláudio soando como um youtuber brasileiro dos anos 2000. Ao passar ao lado das casas, também dá para ouvir os gemidos das pessoas presas lá dentro. Só o som do jumpscare de quando você morre é horrendo, alto e repetitivo, e poderia variar.
Puzzles e level design
O jogo reúne várias camadas da mesma favela, e a passagem entre elas é feita por relógios de pêndulo. O que você faz em uma camada persiste nas outras: uma porta aberta em uma realidade continua aberta nas demais, por exemplo. Essa troca dá motivo para voltar a lugares já visitados e rende um bom level design: em nenhum momento fiquei perdida sobre onde deveria ir. Os puzzles são legais, de dificuldade mediana no modo padrão, nada muito complexo e com bons direcionamentos. Só senti falta de haver mais puzzles.
O jogo tem mais de um final. Fiz alguns puzzles que levariam ao final A (sem saber), mas acabei seguindo um caminho que me levou ao B. Uma coisa de que senti falta: um computador que pudesse ser usado de fato, já que havia energia no local, para enriquecer os puzzles ou a história.
Terror e monstros
O que mais assusta é o lugar. Os caminhos são estreitos e escuros, algumas casas têm televisão ligada e, ao passar perto de uma janela, você pode ver uma pessoa plantada lá dentro.
Os inimigos são figuras humanas de aparência de cera, com olhar vazio e sorriso torto, que ficam paradas observando e, nas camadas mais sombrias, passam a perseguir você quando você não está olhando na direção delas. A câmera ajuda com visão noturna e com um flash, ambos dependentes de bateria.
Na primeira hora, principalmente depois de trocar de camada, o jogo constrói um terror tenso, e o jumpscare funciona. O problema é que você se acostuma. Os monstros costumam ficar nos mesmos lugares, então já dá para chegar preparada para encontrá-los.
A mecânica para lidar com eles também cansa. O flash da câmera, que atordoa os inimigos, só entra um tempo depois, e a bateria é difícil de achar e dura pouco. Teve um monstro que chegou a surgir praticamente em cima de mim, e o jogo não sabe lidar com elas em espaços pequenos. Na casa com vazamento de água, muitas vezes era impossível não ser atacada, e nem o flash resolvia.
Uma história que poderia ir além
A história poderia ser mais rica e melhor desenvolvida. Não ficou claro o contexto do poste (o inimigo do jogo), o que causou aquilo e como aquele universo foi criado. Esperava também críticas mais realistas à vida na favela, mesmo dentro do universo sobrenatural: violência, abandono, desigualdade e sucateamento estão no cenário, mas a história não faz referência a nada disso. Faltou criatividade na forma de contar: quase tudo vem por documentos, o que fica maçante.
Veredito
Otherside Tapes: Favela custa R$ 33,99 (preço de tabela na Steam) e, para o valor, é um jogo curto: levei 5 horas para zerar porque explorei cada canto com paciência, enquanto a estimativa divulgada pela Pulsatrix é de cerca de 2 horas. Para quem quer ver o Brasil e a cultura do dia a dia de tantas pessoas representados em um jogo de terror, para apoiar a produção nacional e para quem gosta de puzzle, vale a experiência, e o final alternativo dá motivo para rejogar. Quem espera uma história profunda ou monstros que sigam assustando até o fim pode se frustrar. No fim, a Favela das Almas é o personagem mais forte do jogo.
Pontos positivos
- Estética da favela muito bem construída
- Dublagem e atuação em português
- Level design claro e puzzles com bons direcionamentos
- Ambientação sonora e gráficos bons
Pontos negativos
- História pouco desenvolvida, sem contexto da criatura, e contada por documentos
- Mecânica contra os monstros repetitiva
- Bateria escassa e monstros que bugam em espaços pequenos
- Áudio do jumpscare de morte repetitivo
- Curto para o preço
Ficha técnica
- Nome: Otherside Tapes: Favela
- Desenvolvedora: Pulsatrix Studios
- Distribuidora: Pulsatrix Studios
- Gênero: terror psicológico em primeira pessoa
- Data de lançamento: 22 de outubro de 2026
- Plataformas: PC (Steam e Epic Games Store)
- Preço: R$ 33,99
- Modos de jogo: um jogador
- Idiomas: dublagem em português do Brasil; legendas em português do Brasil e inglês
- Conquistas Steam: 9
Eduarda Saturnino
É técnica em audiovisual e community manager com 7 anos de experiência no universo gamer.
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