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A empresa média pode chegar antes no uso de inteligência artificial

O início é menos sobre infraestrutura e mais sobre uso do dado que já existe

Em maio, quando abri esta série, a frase que eu mais ouvia de empresários era “eu não sei por onde começar”. Alguns meses e alguns projetos depois, a resposta que tenho é mais simples do que eu imaginava: pelo dado que a empresa já tem e sem gastar com infraestrutura.

A percepção do mercado vai na direção oposta. Na pesquisa de inovação do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com indústrias de 100 ou mais funcionários, o custo alto aparece como obstáculo para 78,6% das empresas, e a falta de gente qualificada para 54,2%. Os números falam de tecnologias digitais avançadas em geral, mas ajudam a entender por que tanta empresa adia. Na pesquisa TIC Empresas, do Cetic.br, a empresa média usa bem menos IA que a grande, 32% contra 50%.

O que vi nos últimos meses deveria contar outra história.

Em uma fabricante de alimentos, a ligação entre a IA e o sistema de gestão ficou pronta em menos de uma semana. Quem fez foi a equipe de tecnologia da própria empresa, seguindo um roteiro simples, sobre um espelhamento dos dados que só permite leitura. Sem licença nova e sem risco para a operação. Com o histórico de vendas desde 2020, a primeira versão de um modelo simples de previsão de demanda errou cerca de quatro vezes menos que o método usado até então, olhando três meses à frente.

Numa distribuidora, os dados que já estavam no sistema passaram a mostrar a margem real por vendedor e por pedido, depois de descontos e bonificações. A informação estava lá. Faltava montá-la de forma acionável para implementação de quem cuida do processo.

Comece por uma pergunta de negócio que já incomoda alguém e pelo dado que está guardado no sistema há anos

Numa rede de varejo em dificuldade, trabalhamos sem integração. Por extração, recebemos cerca de 10 GB de dados, lidos e processados em poucos minutos. Somada a entrevistas com a liderança, essa primeira leitura contribuiu para a geração de uma lista de iniciativas para recuperar o negócio, quantificando o efeito de cada uma em um trabalho que antigamente tomava semanas.

Os três exemplos começaram pelo sistema que a empresa já usava, sem um projeto de tecnologia de meses antes. Sim, isso significou zero custo ou investimento.

O que a IA não resolve sozinha é saber se o número faz sentido. Flávio Pies mostrou nesta série que ela erra com a mesma cara de quem acerta, e com dado de empresa acontece igual. Na fabricante, a tabela de notas fiscais registrava cada cancelamento duas vezes e a primeira soma de vendas saiu inflada. Na distribuidora, um erro na parametrização do sistema contou em dobro os impostos, prejudicando o custeio do produto e as consequentes conclusões. A IA processou tudo sem reclamar. Quem percebeu o problema foi gente que conhece o negócio.

Na empresa média, a IA começa no sistema que já está lá e a liderança sabe quais são as dores do negócio. Nosso trabalho foi trazer método e unir essas pontas.

Nisso, a empresa média pode levar vantagem sobre a grande. O estudo do MIT (Massachussetts Institute of Technology) que citei em maio, aquele dos 95% de projetos-piloto sem retorno mensurável, traz um dado menos comentado: empresas de médio porte levaram cerca de 90 dias do piloto à implementação, contra nove meses ou mais nas grandes. Faz sentido. Na média, o dono está perto e a cadeia de aprovação é curta. Vanessa Sandrini lembrou aqui que a decisão continua sendo humana. Na empresa média, ela só demora menos.

Tem um cuidado que precisa entrar na conta desde o início: o que foi construído não pode ir embora com o consultor. Esses trabalhos funcionam melhor se já forem feitos juntos, ou melhor, através da equipe executiva do cliente. Essa colaboração melhora o resultado e permite o enraizamento do conhecimento da solução e do uso potente de IA no negócio.  Em uma empresa sem ninguém que conheça o próprio sistema por dentro, desconfio que o ritmo seja outro.

Em maio, propus três escolhas para adotar a IA: letramento, governança e onde aplicar. Continuam valendo. O que esses meses de trabalho me deram foi uma resposta melhor para a pergunta do começo. Comece por uma pergunta de negócio que já incomoda alguém e pelo dado que está guardado no sistema há anos.

Escrevi também que a janela estava aberta. Continua, e entrar por ela custa menos do que parece.

Francisco Rochadel é CEO e fundador da Mondoré.

Pebio-Mondoré

Este artigo de opinião faz parte do Debate ‘As escolhas em relação à inteligência artificial’. A série é produzida com o apoio da Mondoré, consultoria estratégica e empresa B certificada que tem como missão contribuir para o aumento de produtividade de negócios nacionais a partir de diagnósticos de gestão, operação e da adoção da IA de forma realista, prática e considerando seus impactos socioambientais.

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